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Brasformer - No caminho da energia
28/07/2026 • Por Administrador Brasformer

Ferrorressonância

Ferrorressonância

Ferrorressonância: o fenômeno invisível que ameaça sistemas elétricos

A ferrorressonância é um fenômeno de ressonância não linear que ocorre em circuitos de corrente alternada (CA). Diferentemente da ressonância linear comum, ela envolve a interação entre a capacitância do sistema e a indutância não linear de equipamentos com núcleo de ferro, como transformadores.

O que causa a ferrorressonância?

Para que o fenômeno ocorra, é necessária a combinação de três elementos principais:

1. Uma indutância não linear saturável

Geralmente, o enrolamento de um transformador de potência ou de potencial (TP).

2. Uma capacitância significativa

Cabos isolados longos, linhas de transmissão ou bancos de capacitores.

3. Uma fonte de tensão com baixo amortecimento

Essa condição ocorre frequentemente durante manobras de abertura ou fechamento de apenas uma fase (monopolar).

Características do fenômeno

Ao contrário da ressonância convencional, a ferrorressonância não possui uma frequência única e crítica. Ela pode apresentar:

  • Altas sobretensões: valores que podem chegar a duas ou três vezes a tensão nominal, danificando os sistemas de isolação.

  • Sobrecorrentes: podem causar aquecimento excessivo e colapso térmico.

  • Níveis elevados de distorção harmônica: a forma de onda da tensão torna-se altamente irregular.

  • Instabilidade: o sistema pode alternar entre diferentes estados de equilíbrio de forma imprevisível.

Cenários comuns de ocorrência

Os engenheiros e técnicos devem estar atentos a situações de risco, tais como:

  • Operações de chaveamento monopolar: quando uma fase é conectada enquanto as outras permanecem abertas.

  • Rompimento de condutores: pode gerar um desequilíbrio capacitivo severo.

  • Sistemas com neutro isolado: nos quais as capacitâncias para a terra são mais influentes.

Como prevenir e mitigar

A proteção contra a ferrorressonância exige planejamento e dispositivos específicos.

1. Resistores de amortecimento

Instalação de resistores no secundário de transformadores de potencial, em circuitos conectados em triângulo aberto.

2. Manobras tripolares

Evitar o uso de chaves fusíveis unipolares em sistemas críticos, garantindo que as três fases operem simultaneamente.

3. Dimensionamento de cabos

Avaliar a extensão dos cabos para evitar que a capacitância entre em "sintonia" com a saturação do núcleo do transformador.

Conclusão

A ferrorressonância é um desafio silencioso na engenharia elétrica. Sua natureza não linear a torna difícil de prever sem simulações computacionais avançadas, como as realizadas com o software ATP/EMTP. No entanto, o conhecimento dos cenários de risco é o primeiro passo para garantir a integridade dos ativos e a continuidade do fornecimento de energia.

Cargas padronizadas e impacto na ferrorressonância

A carga conectada ao secundário de um transformador, especialmente dos TPs, desempenha um papel fundamental no amortecimento do fenômeno. Uma carga muito baixa, com o transformador operando em vazio ou levemente carregado, aumenta significativamente o risco de ferrorressonância.

1. Classes de exatidão e cargas térmicas (NBR 6855)

No Brasil, seguimos a norma NBR 6855, que define as cargas padronizadas para transformadores de potencial. Essas cargas são identificadas por letras e representam a potência aparente (VA) que o transformador suporta, mantendo sua precisão.

2. A carga de amortecimento

Para evitar a ferrorressonância em sistemas nos quais o risco é alto, como em TPs conectados a sistemas com neutro isolado, costuma-se utilizar uma carga mínima permanente.

Muitas vezes, a carga dos instrumentos de medição e proteção (transmissores, multímetros digitais) é extremamente baixa, da ordem de 1 a 5 VA, o que não é suficiente para dissipar a energia da oscilação ferrorressonante.

Por isso, recomenda-se:

  • O uso de um resistor de carga mínima no secundário;

  • Garantir que o transformador opere com pelo menos 25% a 30% de sua carga nominal de exatidão.

3. Transformadores de distribuição

Para transformadores de força e distribuição, as cargas são dimensionadas conforme a demanda da rede. No entanto, o fenômeno ocorre geralmente em vazio.

  • Capacidade padrão (kVA): 15, 30, 45, 75, 112,5 e 150 kVA (comuns em redes aéreas).

  • Risco: se um transformador de 75 kVA for energizado por meio de um cabo longo e uma das fases da chave fusível falhar, a capacitância do cabo poderá interagir com a indutância de magnetização do transformador em vazio, desencadeando a ferrorressonância.

Fontes e referências consultadas

  • IEEE Standard C57.105 — Guide for Application of Transformer Connections in Three-Phase Distribution Systems;

  • ABB Technical Guide — Ferroresonance: A Potential Threat to Power Quality and Equipment;

  • Kindermann, G. — Curto-Circuito. Edição do Autor (referência clássica em sistemas de potência no Brasil);

  • CIGRÉ Working Group — Reports on Non-linear Oscillations in Power Systems;

  • ABNT NBR 6855 — Transformadores de potencial: especificação e ensaios;

  • IEEE C57.13 — Standard Requirements for Instrument Transformers;

  • Manuais de Engenharia da CPFL/Enel — Seções de dimensionamento de subestações e proteção.